ANGELI TORTEROLI, UM PIONEIRO ESPÍRITA QUE NÃO MERECE SER DESPREZADO – PARTE 2

Apesar de sua extensa folha de serviço em prol do Espiritismo no Brasil, Angeli Torteroli ficou negativamente marcado pelo fato de Bezerra de Menezes ter lhe feito pesada oposição no período de 1895 a 1897.

No final do Século XIX, os espíritas da cidade do Rio de Janeiro estavam divididos em duas facções. Alguns entendiam que o Espiritismo era uma ciência. Outros, que era uma religião. Os primeiros ficaram conhecidos como “científicos”. Os segundos, como “místicos”.

Na época, a mais respeitada instituição espírita carioca, a Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, era dominada pelos “científicos”. Na tentativa de criar uma instituição neutra, Elias da Silva funda a Federação Espírita Brasileira em 1884, cujo primeiro presidente foi o Marechal Ewerton Quadros.

Em 1889, Ewerton Quadros é transferido para Goiás. Para seu lugar, foi eleito o médico e deputado Adolfo Bezerra de Menezes, que, fazia três anos, havia chocado a sociedade carioca com sua adesão ao Espiritismo. Bezerra assume a FEB e convoca um congresso para o dia 31 de março de 1889.

Neste congresso, Bezerra defende a criação de uma nova instituição para congregar os centros espíritas existentes, ao invés de utilizar a FEB para esse fim. A proposta é aceita e a nova casa é criada com o nome de Centro Espírita Fraternidade.

No final de 1889, desejando dedicar-se mais ao Centro Espírita Fraternidade, Bezerra passa a presidência da FEB para o médico Dr. Francisco Dias da Cruz. No entanto, o esforço de Bezerra foi inútil, pois os espíritas não prestigiaram o  papel unificador do Fraternidade. Desolado com o fracasso do Centro Espírita Fraternidade, Bezerra passa a frequentar exclusivamente o Grupo Ismael, principal reduto dos “místicos”.

Em 1894, Angeli Torteroli refunda o Centro da União Espírita do Brasil, aumentando-lhe o nome para Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil e reativando seu programa de unificação. Convidados, Bezerra e Augusto Elias aceitam participar da diretoria.

No final de 1894, Dias da Cruz passa a presidência da FEB para Júlio César Leal. A expectativa era que Leal mantivesse a neutralidade de Cruz. No entanto, assim que assumiu, Leal tomou direção oposta, passando a prestigiar os “científicos” e a desprezar os “místicos”.

Com isso, os “místicos” instalados na FEB começaram a fazer forte oposição interna ao novo presidente, que acabou renunciando e indo para o Centro da União. Dias da Cruz, que estava na vice-presidência, percebendo que a ala “mística” era majoritária, recusa a presidência. Com a presidência vaga, essa maioria “mística” da FEB pede que Bezerra de Menezes assuma o comando da casa.

O Bezerra de 1895 não era mais o Bezerra de 1890. Os cinco anos de isolamento no Grupo Ismael haviam transformado Bezerra num “místico” típico. No dia 3 de agosto de 1895, Bezerra assumiu a presidência da FEB com um novo estatuto, que lhe dava amplos poderes e estabelecia o binômio Kardec-Roustaing. 

Dias da Cruz cumpre seu mandato de vice-presidente até o final de 1895 e se afasta no ano seguinte. Augusto Elias continua tentando se equilibrar entre as duas facções.

No final de 1895, Bezerra inicia uma série de artigos contra os “científicos” e o Centro da União no REFORMADOR.

Em 15/11/1895, Bezerra publica o artigo RES NON VERBA. O presidente febiano critica a montagem da peça O CRIME DO PADRE AMARO de Eça de Queiroz numa das reuniões ordinárias do Congresso Espírita Permanente do Centro da União.

Em 01/01/1896, Bezerra publica o artigo OS TEMPOS SÃO CHEGADOS.

Em 15 de março de 1896, Bezerra publica o artigo FALSOS PROFETAS.

Através do Ofício nº 248, o Centro da União diz que suas posições doutrinárias não são infalíveis e pede que os centros espíritas se manifestem sobre o problema da conceituação do Espiritismo.

Em 01/05/1896, Bezerra publica o artigo PELO FRUTO SE CONHECE A ÁRVORE.

Bezerra publica o artigo ESPIRITISMO – CIÊNCIA OU RELIGIÃO? no Reformador de 1 de julho de 1896.

O Centro da União exonera Bezerra da sua diretoria, acusando-o de ter militância político-partidária.

Em 15/08/1896, Bezerra publica o artigo A VERDADEIRA PROPAGANDA.

Nesse artigo, o presidente febiano diz que concordou em ser diretor do Centro na esperança de que a instituição seguisse uma direção correta e que sua exoneração não se deu por causa de sua militância político-partidária, mas por suas posições doutrinárias na prática do Espiritismo. Em seguida, critica Torteroli por ter afirmado que Jesus não era seu senhor. Ao final, ele diz que os espíritas deveriam optar entre o Centro da União e a FEB.

Bezerra publica um aviso no Reformador de 1 de setembro de 1896, comunicando que ele e a FEB não tinham mais nenhuma relação com o Centro da União. Além disso, o presidente febiano afirma que o fato de o Reformador publicar notas e ofícios do Centro da União não representava subordinação, mas simples condescendência.

Ao final, comunica que a FEB não enviará mais representante às reuniões do Centro da União, prática que vinha acontecendo desde a gestão de Júlio César Leal.

Bezerra publica o artigo AINDA A PROPAGANDA ESPÍRITA no Reformador de 1 de setembro de 1896.

O Centro da União publica o Ofício nº 487 no Reformador de 15 de setembro de 1896, onde Torteroli explica melhor o que pensa sobre Jesus de Nazaré.

Diz Torteroli: “Jesus não é meu senhor e sim meu irmão amado, que me auxilia para chegar até ele”.

Bezerra publica o artigo CLAMA, NÃO CESSES no Reformador de 15 de setembro de 1896.

Neste artigo, o presidente febiano contesta o lema AMOR, DEUS E LIBERDADE, defendido pelo Centro da União, dizendo que não se pode invocar o nome de Deus sem seguir Jesus.

Além disso, critica também a colocação de uma flâmula na porta da entidade.

Diz Bezerra: “Os templos não têm placas, nem flâmulas (…). Isto é próprio de festas mundanas, nunca de exercícios religiosos”.

O “científico” Vítor Antônio Vieira publica uma extensa crítica a Bezerra no Jornal do Brasil de 11 de outubro de 1896.

Diz Vitor em determinado trecho: “Os argumentos produzidos pelo Dr. Bezerra de Menezes, em prol da sua orientação espírita, não passam de vistosas bolhas de sabão, sopradas pelo seu misticismo, para deslumbrar a simplicidade ignorante dos que não se querem dar ao trabalho de raciocinar”.

Bezerra publica o artigo PELO FRUTO SE CONHECE A ÁRVORE no Reformador de 15 de outubro de 1896.

Nesse artigo, o presidente febiano critica a tese de que Deus não castiga nem perdoa, defendida pelo Espírito Luiza Maia Torteroli.

O texto ditado pela referida entidade, intitulado PRECE, faz parte de uma coletânea de mensagens mediúnicas anexada na edição de O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO publicada pela Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade.

O trecho em questão diz o seguinte: “Tu (Deus) me criastes com o livre arbítrio para eu ter o mérito do meu progresso moral e intelectual. Tu não me castigas e não me perdoas porque só te vinculas comigo pelo teu amor…”.

O Centro publica o Ofício nº 515 no Reformador de 15 de outubro de 1896, comunicando que não vai discutir com seus agressores.

Bezerra publica a primeira parte do artigo FIAT LUX no Reformador de 2 de novembro de 1896, respondendo às críticas de Vítor Antônio Vieira.

O Centro da União publica o Ofício nº 522 no Reformador de 2 de novembro de 1896, dizendo que levará a questão sobre o caráter do Espiritismo à decisão do Congresso Espírita Permanente.

Bezerra publica a segunda parte do artigo FIAT LUX no Reformador de 15 de novembro de 1896.

Bezerra publica a primeira parte do artigo UMA SIMPLES RÉPLICA na mesma edição do Reformador.

Este artigo também é uma resposta às criticas de Vítor Antônio Vieira.

O Centro da União publica o Ofício nº 529 no Reformador de 15 de novembro de 1896, informando que adotará a definição de Espiritismo que for votada na sessão extraordinária do Congresso Espírita Permanente, marcada para 28 de agosto de 1897.

O Reformador de 1 de dezembro de 1896 informa que três grupos espíritas romperam com o Centro da União.

Angeli Torteroli publica o livro O ESPIRITISMO NO BRASIL E EM PORTUGAL no final de 1896.

Neste livro, Torteroli reproduz o artigo de Vítor Antônio Vieira contra Bezerra, originalmente publicado no Jornal do Brasil

Bezerra publica a terceira parte de FIAT LUX e a segunda parte de UMA SIMPLES RÉPLICA no Reformador de 1 de dezembro de 1896.

Bezerra publica a quarta parte de FIAT LUX no Reformador de 15 de dezembro de 1896.

O noticiário do Centro da União, publicado no Reformador de 1 de janeiro de 1897, informa que realizou uma “procissão cívica” (na verdade, uma passeata) como atividade preparatória da sessão extraordinária do Congresso Espírita Permanente.

Leopoldo Cirne publica o artigo PAX no Reformador de 1 de janeiro de 1897, pedindo a pacificação do movimento espírita brasileiro.

Bezerra publica o artigo PAZ no Reformador de 15 de janeiro de 1897, refutando o artigo de Cirne. Diz o presidente febiano: “Guerra aos que dão costas à luz…”

Bezerra publica o artigo MIRABILE DICTU no Reformador de 1 de fevereiro de 1897.

Neste artigo, o presidente febiano discorda da idéia de definir o caráter do Espiritismo através de um congresso, afirmando que essa definição já havia sido dada por Kardec e Roustaing.

Bezerra questiona também a representatividade do Centro da União, dizendo que o Congresso Espírita Permanente era uma reunião de apenas doze instituições.

A revista espírita paulista Perdão, Caridade e Amor publica um manifesto de apoio a FEB. O Reformador transcreve esse manifesto na edição de 1 de março de 1897.

A revista Religião Espírita, órgão do Centro Espírita do Rio Grande do Sul, critica Bezerra. O presidente febiano responde às críticas no Reformador de 15 de abril de 1897.

O Centro da União realiza a sessão extraordinária do Congresso Espírita Permanente no dia 28 de agosto de 1897.

A Revista Espírita do Brasil, órgão oficial do Centro da União, publica o artigo PRATICAMOS A CIÊNCIA ESPÍRITA E A MORAL CRISTÃ nos números de setembro de outubro de 1897.

Neste artigo, o Centro da União faz a defesa de suas posições doutrinárias, cujo resumo segue abaixo:

1- Jesus de Nazaré era um filósofo e, por isto, não fundou nenhuma seita religiosa.

2- O fundamental nos Evangelhos é o ensino moral de Jesus.

3- Não há contradição entre a prática da moral cristã e o cultivo da ciência.

4- O Espiritismo é uma ciência integral e progressiva.

5- A finalidade do Espiritismo é regenerar a sociedade.

6- As posições doutrinárias do Centro da União encontravam respaldo nos congressos espíritas de Barcelona, Madri e Paris.

O artigo era assinado pela diretoria.

Augusto Elias da Silva, Ernesto dos Santos Silva, João Gurgel do Amaral Valente, José Vila Franca e Manoel Joaquim Maximinino comunicam laconicamente que se desligaram da diretoria do Centro da União.

Os diretores Lima e Cirne e Pinheiro Guedes não seguem o mesmo caminho e Júlio César Leal continua frequentando as reuniões do Centro.

Bezerra publica o artigo LAMENTÁVEL no Reformador de 15 de novembro de 1897.

O presidente febiano afirma que a saída dos cinco diretores do Centro da União se deu por causa do comportamento  de Torteroli.

Abaixo, segue um resumo do artigo:

Gravíssimos motivos (…) atuaram no ânimo desses confrades para assim procederem (…) e são de tal ordem (…) que somos forçados a desprezar o exemplo de tolerância que encerra o citado o citado aviso (…), em face (…) dos verdadeiros atentados em nome (…) de uma doutrina santa, prostituída e sacrificada por quem se inculca falsamente apóstolo e propagandista (…). Há (…) um grupo que faz do Espiritismo uma espécie de balcão, com uma sacola à entrada, em que visitantes são taxados a tanto por cabeça (…), há (…) um lugar (…) em cujo frontispício se ostenta uma tabuleta-reclame com inscrições espíritas, mas em cujo interior o que se faz é a exploração da imoralidade, a que o Espiritismo apenas serve de engodo e pretexto. Antes de finalizar, sentimos necessidade de endereçar algumas palavras à infeliz criatura, cujo (…) procedimentos nos obriga a este protesto (…). O déficit de uma existência malbaratada em orgias de prazer, quando deveria ter sido posta ao serviço do bem e da verdade, há de exigir longos séculos (…) para que possa vir a ser equilibrada. Recue enquanto é tempo desse despenhadeiro fatal a que sua fraqueza o arrastou e em cujo fundo o aguardam as mais lancinantes dores, quando não a própria morte moral”.

Não tenho dados para afirmar se as acusações de Bezerra foram justas ou injustas.

Em defesa de Torteroli e da instituição, os membros do Centro da União escrevem uma réplica a Bezerra e a remetem para a Revista Espírita do Brasil.

No entanto, o redator do órgão (o próprio Torteroli) recusa a publicação do texto porque estava decidido que a Revista não abriria espaço a polêmicas.

Com isto, os “científicos” publicam o texto na Gazeta de Notícias de 28 de novembro de 1897 sob o título de ESPIRITISMO:

“Ah… sr. redator da Federação, V.S. devia ser compelido a provar tudo o que escreveu em seu jornal contra o Centro da União Espírita. Não o fazemos e até lhe perdoamos as diatribes porque sabemos que, não obstante blasonar de ser espiritista-cristão, V.S. guarda (…) certo rancor contra um dos diretores do Centro porque ele teve a ousadia de não obedecer a V.S. e dizer-lhe algumas verdades desagradáveis e mesmo um tanto duras para os ouvidos de V.S., habituados às louvaminhas do rebanho de que V.S. é o santo e puro pastor.

Esse homem que V.S. amarra ao seu pelourinho (…) é um daqueles que lançaram os fundamentos do Espiritismo no Brasil, lutando com todas as dificuldades e sacrificando-se pessoal e pecuniariamente em bem da propagação dessa luz (…).

Esse homem nada tem, vive paupérrimo, empregando tudo o que possui, a sua atividade infatigável, todo o seu tempo em prol do Espiritismo.

Esse homem, senhor da Federação, que V.S. atou ao seu pelourinho (…) tem faltas, sabe que há de expiá-las, mas não as esconde hipocritamente, como aqueles fariseus e doutores da igreja (…).

Esse homem, senhor da Federação, vos perdoa de coração, porque vê que estais eivados do mesmo vírus dos fariseus. É o vírus do fanatismo religioso. A vossa linguagem é por demais católica, apostólica, romana. Ela cheira à sacristia.

Vós dizeis que o Cristo fundou uma religião. Nós afirmamos que Jesus condenou todas as seitas religiosas e fundou a moral cristã.

Vós dizeis que o Espiritismo é uma religião. Nós afirmamos, em nome dos diversos congressos espíritas realizados na Europa, que o Espiritismo é a luz brilhante da razão e da moral e que a filosofia espírita (…) se baseia na ciência espírita, integral e progressiva”.

Ao final, também foi publicado o bilhete de Torteroli devolvendo o artigo:

“Agradecemos aos irmãos espíritas autores do artigo ESPIRITISMO, que nos ofereceram para a Revista Espírita do Brasil (…).

Não pretendemos admitir polêmicas (…) com quem quer que seja, nas 381 páginas de cada ano da Revista, porque todas elas serão (…) consagradas à propaganda franca, aberta, ativa e ostensiva do Espiritismo. Por isso, pedimos aos dedicados espíritas (…) para darem outro destino ao artigo, se julgarem conveniente.

Supomos que os que nos guerreiam (Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, médico, presidente da Federação e Leopoldo Cirne, guarda-livros, secretário da Federação) sabem que estão faltando à verdade e exagerando os fatos, na intenção de matar o Centro da União Espírita para dar grande vida a Federação. Espírito de concorrência ou ódio de classe.

Desafiamos a que nos provem que não procedemos melhor do que eles”.

Na Revista Espírita do Brasil de novembro de 1897,  Torteroli publica a seguinte nota:

“… devemos declarar que não publicamos na Revista Espírita do Brasil o artigo ESPIRITISMO porque a Revista e o Centro se consagram à missão de fortificar os laços da solidariedade fraternal da família espírita do Brasil (…). Não pode, portanto, desvirtuar a sua missão com polêmicas e intrigas impróprias de um órgão espírita”.

Bezerra publica o artigo O ESPIRITISMO EM SEU VERDADEIRO CARÁTER no Reformador de 15 de dezembro de 1897.

Sob a forte oposição de Bezerra, o Centro da União e a corrente “científica” acabaram se enfraquecendo. 

No entanto, a referida corrente sobreviveu até a segunda metade de 1898, publicando a Revista Espírita do Brasil e mantendo o Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil.

Em 1926, Torteroli participou da Constituinte Espírita Nacional. Essa assembléia fundou a Liga Espírita do Brasil, uma entidade federativa de âmbito nacional, criada como opção para as instituições que discordavam da FEB.

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