ANGELI TORTEROLI, UM PIONEIRO ESPÍRITA QUE NÃO MERECE SER DESPREZADO – PARTE 3 (FINAL)

Angeli Torteroli morreu no dia 11 de janeiro de 1928, aos 82 anos de idade, na enfermaria da Santa Casa de Misericórdia, vitimado por problema cardíaco.

Antes de seu falecimento, a diretoria da Liga Espírita do Brasil quis transferi-lo para um quarto particular, mas ele recusou o conforto e pediu que o dinheiro fosse empregado na ajuda aos pobres.

Seu corpo foi sepultado no dia 12 de janeiro de 1928 no Cemitério de São Francisco Xavier (também conhecido como Cemitério do Caju), às expensas do Coronel Antônio Barbosa da Paixão, comandante da Cavalaria da Brigada Policial do Distrito Federal e membro da Liga.

O Jornal do Brasil noticia o fato na sua edição de 12 de janeiro de 1928:

“Com a morte do professor Angeli Torteroli, ontem ocorrido, perdeu o Espiritismo um dos seus maiores propagandistas.

Devotado à doutrina, Angeli Torteroli não se limitava a praticá-la; pregava-a a todos e em qualquer parte, fazendo verdadeiros comícios de propaganda.

Antigo batalhador da imprensa, militou em vários jornais desta capital. Professor de Humanidades, manteve em sua casa cursos diurno e noturno muito frequentados, nunca exigindo de seus alunos, consoante o seu temperamento, qualquer retribuição.

Boníssimo, esmoler, caritativo, Angeli Torteroli nada possuía, pois o que lhe chegava às mãos logo distribuía ao primeiro necessitado. Em sua residência era feita quotidianamente profusa distribuição de pãos os pobres; pão que o morto de ontem ia solicitar, de madrugada, aos padeiros generosos. Dinheiro que tivesse, o bondoso ancião dava-o a quem lhe pedisse, sem se lembrar que no dia seguinte o faminto seria ele.

Esses gestos de altruísmo tornavam-no uma figura muito conhecida e estimada. Daí, o pesar que a notícia do seu falecimento causou aos seus amigos e, principalmente, aos que ele socorria.

Angeli Torteroli finou-se ontem à noite na 2ª Enfermaria da Santa Casa da Misericórdia, onde se internara há dias, gravemente doente. Morre ele aos 82 anos de idade, vítima de uma enfermidade cardíaca.

O seu enterramento será efetuado hoje à tarde, saindo o féretro daquela casa hospitalar. O cemitério onde será inumado o cadáver não foi ainda designado pelos amigos generosos que se encarregaram dos seus funerais.”

O Jornal do Brasil faz um relato do enterro na edição de 13 de janeiro de 1928:

“Foram inumados ontem, no cemitério de São Francisco Xavier, os restos mortais do professor Angeli Torteroli,  anteontem falecido na Santa Casa de Misericórdia.

Seus funerais, não tão modestos como ele os desejara, feito por amigos generosos, foram assistidos por grande número de pessoas.

No necrotério da Santa Casa, onde estava o cadáver depositado, desenrolaram-se cenas comoventes.

Abraçadas ao corpo rígido do velho propagandista do Espiritismo, humildes pessoas a quem ele socorria verteram lagrimas sentidas,  deplorando a morte do seu generoso protetor.

E os amigos de Angeli Torteroli, que durante todo o dia de ontem velaram o seu cadáver, relembravam, cheios de saudades, ações caridosas do estimado ancião, sempre disposto a praticar o bem, sempre pronto a sacrificar-se em benefício de seus semelhantes.

Sua figura veneranda, atravessando as ruas centrais da cidade de saco às costas levando o pão que obtivera esmolando e iria distribuir mais tarde aos necessitados, era recordada com carinho em evocações de saudade.

Ao cerrar-se o caixão que continha os despojos do professor Angeli Torteroli, o desembargador Gustavo Farnese, na conformidade do ritual espirita, pronunciou comovedora prece pela alma do extinto.

No cemitério, ao baixar o esquife à sepultura, o tenente-coronel Antônio Paixão, em nome dos amigos do morto, fez o seu panegírico, recordando fases de sua vida de bondade e agradecendo os relevantes serviços por ele prestados à causa espírita, como seu intimorato propagandista que fora.

Angeli Torteroli foi  inumado na sepultura nº 34773, quadra 61, da necrópole de são Francisco Xavier.

Era viúvo de D. Maria Torteroli, falecida há um ano, e deixa, nesta capital, um irmão, Sr. Luís Torteroli.”

Por sua vez, o famoso cronista Hermeto Lima (1) comenta a morte de Torteroli no Jornal do Brasil de 22 de janeiro de 1928:

“Com o falecimento de Angeli Torteroli, desaparece mais um tipo popular do Rio de Janeiro.

Quem visse a figura daquele ancião, quase sempre sem chapéu, de blusa cáqui, carregando às costas um saco, perguntava logo quem era aquele homem tão esquisito.

No entanto, sob aquela blusa, muitas vezes surrada, ocultava-se um coração de ouro, uma alma digna de ser admirada.

Naquele saco, levava ele o pão para os pobres famintos. Ia de padaria em padaria, pedi-lo, mendigá-lo para matar a fome das crianças do seu bairro.

Por vezes, o padeiro estava de mau-humor e atirava-lhe um doesto. Torteroli tirava o lenço do bolso, limpava o suor da fronte e nada respondia. No dia seguinte, ei-lo de novo, a pedir o pão duro, sobras das vendas dos dias anteriores. O padeiro já não estava tão atravessado e mandava atender o Torteroli. Atendido, ele sorridente, agradecia e dizia: até amanhã.

— Não senhor, até amanhã, não senhor. Não venha buscar amanhã que não há sobras.

Mas, no dia seguinte, lá estava ele a buscar os pedaços de pão.

Às vezes, era nos restaurantes de segunda ordem que ele ia buscar o pão para os seus pobres. Como nas padarias, ora bem, ora mal recebido, o pobre velho ouvia, às vezes, insultos horríveis.

Uma tarde, encontramo-lo na Avenida Passos, não dizemos fulo de raiva porque ele nuca se enraivecia, mas indignado com o dono de uma casa de petisqueiras, que, além de lhe não querer dar os pedaços de pão, sobejos da frequesia, ainda lhe declarou que preferia pô-los na lata de lixo.

Angeli Torteroli era de origem italiana e professava idéias espíritas. A princípio, trabalhou na imprensa, fazendo reportagens policiais e depois vivia de ensinar as disciplinas que sabia.

Fundou um centro espírita numa casa da Travessa da Barreira,  onde fora em tempos o Clube Ginástico Francês. Ali esteve aboletado muitos anos até que o puseram de lá para fora.

Mas o centro espírita da Travessa da Barreira não era somente o lugar onde às quarta-feiras se faziam evocações espíritas. Os boêmios da época que não tinham onde dormir ou que tinham perdido o bonde ou o último trem lá encontravam sempre uma guarida que o bom Torteroli nunca negava a ninguém. É verdade que ele não lhes dava cama, nem bons cobertores, mas lá estava sempre um banco, onde o notívago passava algumas horas até o raiar da manhã.

E ainda tresnoitado, o boêmio acordava e perguntava:

— E o café, Torteroli?

— Está-se fazendo. Espera um pouco.

Dentro de alguns minutos, lá vinha o café servido numa tigelinha porque as xícaras se tinham quebrado.

Malgrado o bom coração que possuía, Torteroli, por mais de uma vez, andou às voltas com a polícia.

Uma vez fora roubado e o gatuno arranjou de tal modo as coisas que ele é que foi denunciado como ladrão. Outra vez, alugou uma casa e passou a sublocar os cômodos. Cada inquilino que não lhe pagava, era um inimigo a mais que ele tinha. Para vingar-se o recalcitrante ia queixar-se à polícia de que ele lhe estava vedando a entrada no quarto que lhe pertencia, etc, etc.

Eis, então, o Torteroli, de baixo para cima, a incomodar-se, para se defender das acusações e feitos que lhe atribuíam.

Acabada com a casa de cômodos, que quase lhe tira os dias da vida, tornou ele a ser de novo professor, ensinando os analfabetos do bairro. As horas que lhe sobravam desse mister, empregava na sua peregrinação pelas padarias. Era de ver-se, então, a quantidade de pobres de todas as idades que corria à sua casa a buscar o pão duro que na frase do homem da casa de petisqueiras, a que nos referimos, era preferível atirá-lo à lata de lixo.

Num catre do Hospital da Santa Casa de Misericórdia, Angeli Torteroli exalou, anteontem, o último suspiro, deixando este vale de lágrimas, onde fez tanto bem.

Não querem as leis espíritas que se chore pelos mortos, mas não proíbem que sejam estes esquecidos. Torteroli nunca o será pelos pobres a quem protegeu”.

A FEB publica justa nota sobre o falecimento de Torteroli no Reformador de janeiro de 1928:

“No dia 12 do corrente sepultou-se no Cemitério de São Francisco Xavier o despojo material do que entre nós foi (…) um propagandista indefesso. Companheiro de todos os iniciadores do movimento espiritista em nosso país, o velho Torteroli tornou-se, por isso mesmo, um nome tradicionalmente conhecidos nos meios estudiosos. De qualquer modo (…) que se encare o feitio moral de Torteroli, jamais se poderá escurecer a sua sinceridade ao serviço, afrontando todas as malquerenças e até ridículos e jamais regateando predicados de generosidade aos seus semelhantes (…). Este e outros serviços à causa valem por títulos creditórios de nossa fraternal homenagem ao irmão que se foi, após uma existência amargurada de muitas provações”.

 xxx

No dia 4 de abril de 1950, o espírito Angeli Torteroli teria ditado uma mensagem ao médium Chico Xavier.

Essa psicografia foi publicada no REFORMADOR de  julho de 1950 e republicada no REFORMADOR  de novembro de 1977.

Nela, Torteroli se penitencia por ter entendido o Espiritismo apenas como ciência e filosofia.

Particularmente, eu acredito que houve influência do pensamento do médium no teor da referida mensagem, pois essa posição doutrinária de  Torteroli não prejudicou sua militância espírita, tanto no que diz respeito à divulgação da obra de Allan Kardec, quanto à prática da caridade.

Aliás, devo ressaltar que o espírito caritativo de Torteroli foi exaltado por jornalistas que não eram espíritas, e, portanto, mais neutros e imparciais.

NOTA:

(1) Natural de Belém do Pará, Hermeto Lima (1872 – 1947) foi historiador, poeta, jornalista, bacharel em Ciências Jurídicas, membro da Academia Carioca de Letras, cronista do Jornal do Brasil e funcionário público. Assim como João do Rio, foi um cronista-pesquisador da vida carioca. Escreveu os livros SUICÍDIO NO RIO DE JANEIRO (1913), O ALCOOLISMO NO RIO DE JANEIRO (1914), OS CRIMES CÉLEBRES DO RIO DE JANEIRO (1921) e HISTÓRIA DA POLÍCIA DO RIO DE JANEIRO (1944). Como poeta, publicou ESTALAGMITES (1898) E ÍRIS (1906).

 

 

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