BREVE HISTÓRIA DO PACTO ÁUREO – PARTE 8 (FINAL)

O Pacto Áureo sempre esteve longe de ser uma unanimidade. Na imprensa espírita, os periódicos que mais criticaram o acordo foram os jornais O PODER e o ALMENARA.

O jornal O PODER foi fundado em Belo Horizonte, em 1947, por Arlindo Correia da Silva (1).

Apesar de ser um grande amigo de Leopoldo Machado, Arlindo foi um dos primeiros articulistas espíritas a criticar o pacto, escrevendo em 1952, uma série de artigos contra a negociação. Alguns desses artigos receberam a réplica de Leopoldo Machado no próprio jornal e outros foram respondidos no livro A CARAVANA DA FRATERNIDADE (Editora Lar de Jesus, 1954). Foi Arlindo quem criou o trocadilho “pato áureo” para depreciar a tratativa de 1949.

O jornal ALMENARA foi fundado no Rio de Janeiro, em 1952, por Antônio Pereira Guedes (não confundir com Pinheiro Guedes, militante espírita do Século XIX) e tinha uma linha editorial ainda mais contundente. Durante oito anos, o ALMENARA não deu sossego a Federação Espírita Brasileira.

Em 1953, o CFN, influenciado pelas idéias pessoais de Wantuil de Freitas, chegou à conclusão de que a Umbanda poderia ser classificada como Espiritismo, embora não fosse doutrina espírita. Essa tese foi defendida em dois documentos da FEB: ESCLARECENDO DÚVIDAS (2) e CONCEITOS ELUCIDATIVOS (3).

Entretanto, a quase totalidade do movimento espírita brasileiro não aceitou essa teoria. Com isso, a FEB também passou a ser acusada de aceitar e estimular o sincretismo entre Umbanda e Espiritismo.

Analisando a questão, Pereira Guedes escreveu no ALMENARA:

“Instalou-se o Conselho e, das listas tríplices, o presidente (Wantuil) escolheu os nomes daqueles que (…) deveriam representar as federações estaduais sem contrariar o pontífice, que, na primeira oportunidade, poria em ação o seu plano de chefete arbitrário, tal como está acontecendo (…). A partir de 1943, a única preocupação do presidente é o departamento editorial (…). Só a indústria do livro lhe interessa e a Doutrina tornou-se, para ele, coisa de somenos (…). O estoque é imenso e pquena a praça para a venda da enorme produção (…). Para  tanto, surge a propaganda UMBANDA EM DIREÇÃO A KARDEC. Mas que livros serão vendidos em consequência dessa propaganda? (4)”.

No início de 1959, correu o boato de que o Pacto Áureo seria rompido antes de completar seu décimo aniversário.

Alfredo Molinaro vinha fazendo forte campanha contra Wantuil de Freitas e as obras mediúnicas de Chico Xavier no ALMENARA

O febiano Indalício Mendes fez a defesa da chamada Casa de Ismael:

“Ao chegar a promulgação do Pacto Áureo, a FEB reiterou sua confiança na unificação (…). Os que dela divergem (…), precisam atentar (…) que (…) a FEB tem subsistido a todas as dificuldades (…). As divergências são pretexto desejado pelos inimigos do Espiritismo e é a FEB que estão reservados os golpes mais fortes (…), por saberem-na a Casa Máter da Doutrina no Brasil” (5).

Na trincheira oposta, Molinaro chamou Wantuil de “fradezinho” no ALMENARA (6).

No entanto, o acordo não foi rompido e completou os dez anos de existência. O fato foi comemorado no REFORMADOR (7).

O ALMENARA desdenhou:

“Está provado que o Pacto Áureo é uma balela e o Conselho Federativo Nacional não tem nenhuma utilidade (8).

Herculano Pires também se manifestou no ALMENARA:

“Hoje, enquanto grassa a confusão (…), a USE permanece manietada pela algema dourada do Pacto Áureo, cuja chave está nas mãos do presidente da FEB…” (9).

Mais adiante, Herculano voltaria ao assunto:

“Instalou-se no Rio, o Conselho Federativo Nacional (órgão da FEB) e tivemos a primeira eclosão dos instintos vaticânicos. O Conselho começou a baixar bulas papalinas sobre questões doutrinárias, a conceder licenças para realização de concentrações e congressos, a negar aos jovens o direito de deliberar em seus movimentos, etc.” (10).

E mais uma vez:

“Precisávamos de fraternidade, solidariedade, trabalho e tolerância, mas não de sujeição passiva a pretensas autoridades doutrinárias, que se arrogavam o direito de dirigir o movimento. A USE correspondia às exigências de organização do movimento sem o risco do autoritarismo. Mas o chamado Pacto Áureo matou essa possibilidade. Firmando o pacto com a FEB, a USE submenteu-se ao Conselho Federativo Nacional, órgão da FEB, que, através dele, começou a baixar bulas papalinas sobre a Doutrina e decretos cardinalícios sobre a organização” (11).

Seguem outras lideranças espíritas contrárias ao Pacto Áureo: Olívio Novaes, Abstal Loureiro, J. Alves de Oliveira, Amadeu Santos, Alfredo de Alcântara e Júlio de Abreu Filho.

A idéia de subordinar federações a uma entidade que não é uma confederação é incoerente. Na prática, isso subordina os presidentes das federativas estaduais aos dirigentes de uma federação que foi criada no para congregar apenas centros espíritas no Século XIX. 

Como a FEB nunca quis transformar-se numa confederação, a única saída para resolver essa histórica incongruência é o conjunto das federações estaduais criarem uma confederação espírita brasileira.

NOTAS:

(1) Entrevistado por Antônio Espeschit, Arlindo disse que Cícero Pereira e Camilo Chaves, ex-presidentes da União Espírita Mineira, também eram contrários ao Pacto Áureo.

(2) REFORMADOR, junho de 1953.

(3) REFORMADOR, julho de 1953.

(4) FALANDO CLARO COMO SEMPRE, ALMENARA, julho de 1953.

(5) EM MARCHA SEGURA PARA O PORVIR, REFORMADOR, janeiro de 1959.

(6) ALMENARA, julho de 1959.

(7) REFORMADOR, novembro DE 1959.

(8) ALMENARA, outubro de 1959

(9) ALMENARA, novembro de 1959.

(10) MENSAGEM, fevereiro de 1975.

(11) MENSAGEM, dezembro de 1976.

 

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