APOIO E OPOSIÇÃO AO PACTO ÁUREO

Na noite de 05/10/1949, Arnaldo São Thiago comunicou o fechamento do acordo entre algumas federativas estaduais e a FEB ao plenário do congresso da CEPA.

A maior parte dos congressistas recebeu a notícia com descontentamento. Essa maioria não gostou que um assunto de magna importância tivesse sido tratado à revelia de um congresso internacional, reunido exatamente para discutir a difusão e a organização do movimento espírita no continente.

Acusou-se também a FERGS de não haver cumprido as resoluções do 1º. Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, que determinava que ela divulgasse as conclusões de seus estudos, antes de regulamentar o funcionamento do Conselho Federativo Nacional (1).

No dia 08/10/1949, Lins de Vasconcelos escreveu um artigo para o jornal MUNDO ESPÍRITA, noticiando o acordo com a FEB e lançando a expressão Pacto Áureo:

“… no dia 05 do corrente foi realizado um encontro em que as nossas instituições mais expressivas, reunidas na sede da Federação Espírita Brasileira, celebraram o Pacto Áureo da confraternização geral dos espíritas do Brasil”.

No dia 09/10/1949, Wantuil de Freitas deu uma entrevista ao programa radiofônico HORA ESPIRITUALISTA JOÃO PINTO DE SOUZA, afirmando que o acordo havia sido previsto pelos espíritos superiores fazia dois anos.

No dia 14/09/1949, foi feita a unificaçãod os órgãos das juventudes espíritas. A União das Juventudes Espíritas do Distrito Federal, fundada em 31/08/1947 e ligada ideologicamente a FEB, fundiu-se com o Conselho Consultivo das Mocidades Espíritas do Brasil, saído do 1º. Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil, criando o Departamento de Juventude da FEB.

Clóvis Ramos comenta:

“Não podia (…) ter desaparecido o Conselho Consultivo (…), nem a União (…). Esta, se estava resolvida a ceder para unir, deveria ter admitido a supremacia de uma entidade surgida de um congresso nacional e que tinha maior penetração (…). Mas foi tudo diferente. Extintas ambas as associações federativas, surgiu o Departamento de Juventude da Federação Espírita Brasileira, formado de elementos da União e do Conselho Consultivo. Fácil se tornou depois, e não demorou muito, o afastamento pelo Dr. Wantuil de Freitas dos que vinham das lides revolucionárias de Leopoldo Machado” (2).

No dia 20/11/1949, foi realizada a assembléia que transformaria a Liga Espírita do Brasil numa federativa regional. Aurino Souto, presidente da Liga e defensor do pacto com a FEB, iniciou a assembléia, lendo ata do acordo. Depois do discurso de Aurino, Henrique Andrade pediu a palavra, analisando os termos do documento e criticando a negociação. Lippman Tesch concordou com a posição de Andrade, afirmando que o livro BRASIL, CORAÇÃO DO MUNDO, PÁTRIA DO EVANGELHO do espírito Humberto de Campos, psicografado por Francisco Cândido Xavier, citado no acordo, possuía muitos erros históricos e doutrinários, como a elogiosa citação a J.B. Roustaing. Sebastião Tourinho discordou dos dois companheiros e louvou a atitude conciliadora de Aurino Souto e Lins de Vasconcelos. Henrique Magalhães, José Fernandes, Constantino Gomes e J.B. Chagas também entraram na discussão. Procurando asserenar os ânimos, Francisco Tiago propôs que se criasse uma comissão para estudar o assunto, mas a proposta foi descartada. Orlando Sobreira fez, então, um apelo em favor da compreensão geral e pediu que se encerrasse a fase de discussão. Diante disso, Aurino Souto submeteu o assunto à votação. O resultado foi o seguinte: 78 votos pela aprovação do acordo, 13 votos contra a aprovação do acordo, 10 abstenções (3). Após a aprovação do acordo, ficou decidido que a Liga Espírita do Brasil se transformaria na Liga Espírita do Distrito Federal (4).

Deolindo Amorim foi um membros da Liga que votou contra a aprovação do acordo. Em carta, ele me explicou sua decisão:

“Fui contra o acordo de 1949, depois chamado de Pacto Áureo, porque não concordei com a forma, o modo político pelo qual se realizou o plano, trabalhado em segredo. Não houve assembléia antes. Tudo já veio preparado”.

No livro IDÉIAS E REMINESCÊNCIAS ESPÍRITA, ele também fala sobre o assunto:

“Em 1949 (…), quando a Liga Espírita do Brasil aceitou o acordo de 5 de outubro (…), acordo que se denominou, posteriormente, Pacto Áureo, tomei posição contrária a de Aurino, voltei (na assembléia d Liga) contra a resolução, porque não concordei com o modo pelo qual se firmara esse documento. E o fiz em volta alta, de pé, na assembléia, com mais doze companheiros que pensavam da mesma maneira (…)” (5).

Como o Norte e o Nordeste se mantivessem alheios ao Pacto Áureo, Wantuil de Freitas pediu a Leopoldo Machado que fizesse uma visita àquelas duas regiões do país, noticiando a criação do Conselho Federativo Nacional.

Leopoldo comenta:

“O ilustre presidente da Federação Espírita Brasileira nos sugeriu, por telefone, em fins de 1949, uma excursão ao Norte. Só seria passível no ano seguinte. A querida esposa havia desencarnado e nós havíamos voltado à direção do Ginásio (…). Fomos, efetivamente, em fins de 1950” (7).

Nesse ínterim, o CFN foi oficialmente instalado no dia 01/01/1950, substituindo o antigo Conselho Federativo da FEB, reunido apenas duas vezes num período de 24 anos.

No dia 31/10/1950, Lins de Vasconcelos, Leopoldo Machado, Francisco Spinelli, Carlos Jordão da Silva e Ary Casadio partiram do Rio de Janeiro, iniciando a sonhada excursão ao Norte e Nordeste do país, com a finalidade de divulgar o CFN.Essa empreitada ficou conhecida como a Caravana da Fraternidade e se encerrou em 13/12/1950, em Belo Horizonte, após o grupo visitar Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal, Fortaleza, Terezina, São Luiz, Belém e Manaus. Em Recife, Luiz Burgos Filho se juntou ao grupo. A Caravana conseguiu adesões ao CFN, pacificou divergências locais e fundou entidades federativas. O relato dessa viagem está registrado no livro A CARAVANA DA FRATERNIDADE de Leopoldo Machado, publicado pela Editora Lar de Jesus.

Na imprensa espírita, os jornais O PODER e ALMENARA criticaram duramente o Pacto Áureo.

O jornal O PODER foi fundado em Belo Horizonte, em 1947, por Arlindo Correia da Silva. Apesar de ser um grande amigo de Leopoldo Machado, Arlindo foi um dos primeiros articulistas espíritas a criticar o pacto, escrevendo em 1952, uma série de artigos contra a negociação. Alguns desses artigos receberam a réplica de Leopoldo Machado no próprio jornal e outros foram respondidos no livro A CARAVANA DA FRATERNIDADE (Editora Lar de Jesus, 1954). Foi Arlindo quem criou o trocadilho “pato áureo” para depreciar o famoso acordo.

O jornal ALMENARA foi fundado no Rio de Janeiro, em 1952, por Antônio Pereira Guedes (não confundir com Pinheiro Guedes, militante espírita do Século XIX) e tinha uma linha editorial ainda mais contundente. Durante oito anos, o ALMENARA não deu sossego a Federação Espírita Brasileira.

Em 1953, o CFN, influenciado pelas idéias pessoais de Wantuil de Freitas, chegou à conclusão de que a Umbanda poderia ser classificada como Espiritismo, embora não fosse doutrina espírita.  Entretanto, a quase totalidade do movimento espírita brasileiro não aceitou essa teoria. Com isso, a FEB também passou a ser acusada de aceitar e estimular o sincretismo entre Umbanda e Espiritismo.

No início de 1959, correu o boato de que o Pacto Áureo seria rompido antes de completar seu décimo aniversário. No entanto, o acordo se manteve e completou os dez anos de existência. O fato foi comemorado no REFORMADOR (7). O ALMENARA desdenhou, afirmando que o Pacto Áureo era uma balela e o Conselho Federativo Nacional não tinha nenhuma utilidade (8).

Herculano Pires também foi um dos grandes críticos do Pacto Áureo. Abaixo, seguem três manifestações dele sobre o assunto em momentos diferentes:

“Hoje, enquanto grassa a confusão (…), a USE permanece manietada pela algema dourada do Pacto Áureo, cuja chave está nas mãos do presidente da FEB…” (9).

“Instalou-se no Rio, o Conselho Federativo Nacional (órgão da FEB) e tivemos a primeira eclosão dos instintos vaticânicos. O Conselho começou a baixar bulas papalinas sobre questões doutrinárias, a conceder licenças para realização de concentrações e congressos, a negar aos jovens o direito de deliberar em seus movimentos, etc.” (10).

“Precisávamos de fraternidade, solidariedade, trabalho e tolerância, mas não de sujeição passiva a pretensas autoridades doutrinárias, que se arrogavam o direito de dirigir o movimento. A USE correspondia às exigências de organização do movimento sem o risco do autoritarismo. Mas o chamado Pacto Áureo matou essa possibilidade. Firmando o pacto com a FEB, a USE submenteu-se ao Conselho Federativo Nacional, órgão da FEB, que, através dele, começou a baixar bulas papalinas sobre a Doutrina e decretos cardinalícios sobre a organização” (11).

Finalizando, lembro outras expressivas lideranças espíritas da época que foram contrárias ao Pacto Áureo: Olívio Novaes, Abstal Loureiro, J. Alves de Oliveira, Amadeu Santos, Alfredo de Alcântara e Júlio de Abreu Filho.

NOTAS:

(1) 35 ANOS DEPOIS DO PACTO ÁUREO, artigo de Abstal Loureiro, publicado no JORNAL ESPÍRITA de março de 1985.

(2) PRIMAVERA QUE DESPONTA, Clóvis Ramos, Editora Letras Espíritas, 1970, p. 37

(3) A ata da assembléia da Liga foi publicada no número de dezembro de 1949 da REVISTA DA FRATERNIDADE, p. 154.

(4) Na época, a Cidade do Rio de Janeiro era  capital do país e distrito federal. Hoje, o CEERJ – Conselho Espírita do Estado do Rio de Janeiro é o legatário do patrimônio físico e histórico da Liga Espírita do Brasil e da Liga Espírita do Distrito Federal.

(5) Editora do Instituto Maria, p. 144.

(6) A CARAVANA DA FRATERNIDADE, Leopoldo Machado, Editora Lar de Jesus, 1954, p. 154.

(7) REFORMADOR, novembro de 1959.

(8) ALMENARA, outubro de 1959

(9) ALMENARA, outubro de 1959.

(10) MENSAGEM, fevereiro de 1975

(11) MENSAGEM, dezembro de 1976.

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